#PerfilEmpreendedor: "A Evoé é uma forma democrática de você escolher para onde seu imposto vai"

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Por: Renato Carvalho/SIMI

Formada em Teatro e Design Gráfico, a empreendedora Bruna Kassab, de 27 anos, é o Perfil Empreendedor desta semana no Conexão SEED e Simi. A fundadora e CEO da startup Evoé, acelerada na 4ª rodada do SEED, tem o propósito de desburocratizar as leis de incentivo e ajudar na melhor distribuição do dinheiro da cultura.

De família libanesa, Bruna batalha para abrir espaço para sua startup no mercado e também para as mulheres empreendedoras. Quer conhecer um pouco mais sobre ela? Confira a entrevista na íntegra:

SIMI: O que é a Evoé?
Bruna: A Evoé é uma plataforma de financiamento coletivo, com o diferencial de usar leis de incentivo à cultura. A gente brinca que queremos hackear a Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura. Aceitamos projetos aprovados por essa lei e, pessoas físicas, que fazem a declaração completa de imposto de renda, podem destinar parte do imposto para a lei. Então, é um financiamento coletivo com imposto de renda. As pessoas não sabem que isso existe. A ideia é simplificar e desburocratizar as leis de incentivo para o dinheiro da cultura ser melhor distribuído.

SIMI: Como surgiu essa dor, como decidiram criar a Evoé?
Bruna: Foi uma dor muito pessoal. Eu sou formada em Teatro e sempre escuto que na vida é preciso ter um plano B, porque ser artista não é uma profissão que dá dinheiro. Comecei a fazer cursos de empreendedorismo, estava meio perdida na vida. Durante um curso havia uma banca em que tinha que apresentar uma ideia e assim começou a nascer a Evoé. Comecei a estudar sobre leis de incentivo e vi que tinha muito dinheiro parado e que poderia ser utilizado. Ninguém fala sobre os mecanismos que existem. Conheci, durante esse meio tempo, uma cineasta que conseguiu levantar R$ 100 mil para um curta só batendo em porta de pessoa física. É um dinheiro que você já paga para o Governo, mas que pode destinar para a cultura. Você pode destinar a um projeto 6% do valor devido do imposto. Pensei em levar isso para o online. Quando comecei, não tinha nem noção do que era startup. Achei um desenvolvedor, que começou como um freela, e apareceram várias pedras no caminho. Achei que ia lançar a plataforma e já começaria a dar dinheiro e que seria tudo lindo e maravilhoso, mas não é bem assim. Aos poucos comecei a entrar nesse mundo de empreendedorismo e startups. Vi que precisava ter um desenvolvedor comigo, porque meu core business é tecnologia. Então, pensei: “vou iniciar a Evoé para começar a tirar meus projetos pessoais do papel”. Mas a última coisa que tive tempo foi para fazer isso.

SIMI: Então você nunca teve outras experiências com empreendedorismo antes da Evoé?
Bruna: Já trabalhei, formei em Design de Interiores, minha mãe tem uma empresa de comércio exterior. Venho de uma família empreendedora. Minha mãe sempre me botou para trabalhar desde cedo. Já trabalhei nessa área [comércio exterior] durante seis anos, mas administrava o escritório com minha mãe. Não via propósito, não era o que eu gostava de fazer. Em design também fiz vários estágios, trabalhei, mas eu via mais como um hobby do que como profissão. Resolvi arriscar. Minha mãe me inspira muito, minha avó inspirou muito minha mãe. Somos de uma família de mulheres que empreendem.

SIMI: Você é formada em Design e Teatro. Como foi sair dessa área criativa e ir para o empreendedorismo?
Bruna: Não sinto que saí. Sinto que faço parte de cada  projeto que entra na Evoé. Ainda tenho meu tempo livre e foco nesta parte. Mas, claro, a Evoé é um bebê, está nascendo, então a maioria do meu tempo está focado nisso e o resultado tem sido muito legal. Ainda não desisti. É algo que ainda tenho em mente, só não estou depositando 100% da minha energia. Quando a Evoé começar a engatar, vou poder me dedicar aos dois ao mesmo tempo.

SIMI: Qual é a maior dificuldade que você encontrou na Evoé?
Bruna: A gente tinha, no início, um problema muito grande de equipe. Vamos aprendendo. Eu não tinha noção alguma de liderança, de montar equipe. E o SEED me ajudou muito com isso. Depois que a Evoé entrou no programa, amadureceu 300%, não sei nem explicar. A startup começou em outubro de 2015, então este ano ela faz três anos. Ano passado foi uma escola para mim como empreendedora. Acho que errei muito, gastei muito dinheiro onde não devia, depois vi que estava fazendo errado. Estava usando muito o lado artístico e faltava o lado analítico, de tecnologia. Aos poucos, o time foi sendo montado. Nossa maior dificuldade foi achar as pessoas certas. Hoje estamos com um time ‘foda’.

SIMI: Mas dificuldades com as leis de incentivo? Enfrentou alguma?
Bruna: Demais. Até hoje. É um trabalho de formiguinha que a gente está adorando fazer. É algo que tem que ser discutido sim, é o nosso dinheiro, temos que fazer o negócio acontecer. Alguém tem que se preocupar com isso. Quando dá certo é muito legal, a gente faz porque a gente ama mesmo. Não é fácil querer mudar um sistema que está aí há anos, com pessoas que estão há anos no mercado fazendo a mesma coisa. E aí entra uma galera jovem, com tecnologia, tem quem goste e quem não goste. Esse mercado da cultura é bem fechado. Mas tem muita gente nos apoiando, como a Receita Federal, o MINC (Ministério da Cultura), então você vê que as pessoas querem ver acontecer. É um trabalho diário, suado, que atinge uma pessoa e no ano seguinte ela faz de novo.

SIMI: Atualmente há um grande movimento contrário à lei de incentivo. Como é o trabalho com as pessoas para destinar o imposto para a cultura?
Bruna: As pessoas criticam muito a lei, mas não sabem como ela funciona de fato. Quando se é aprovado pela Lei Rouanet, você recebeu um O.K para captar o recurso, não é o governo te dando o dinheiro. A lógica é você ir em grandes empresas, que são quem fazem lucro real, e as empresas dão parte do imposto em troca de marketing cultural e tudo mais. A Evoé é uma oportunidade para projetos pequenos que estão começando e que as empresas não têm interesse em patrocinar. Por isso essa coisa da pessoa física é para todo mundo ter oportunidade. A Rouanet é a lei que mais dá dinheiro para a cultura hoje. Eu sempre tento explicar, mas as pessoas sempre criticam muito. Quando fala do Governo as pessoas dão 10 passos para trás. É um trabalho de educação. Às vezes a pessoa nem faz a doação com o potencial total, para ver se o dinheiro vai voltar, se vair cair na malha fina ou não, mas depois elas vêm que dá certo. Elas acham que é bom demais para ser verdade. “Como assim eu estou colocando um dinheiro que eu já pagaria para o Governo em algo que eu acredito?”. Pelo momento em que estamos vivendo na política do Brasil, é uma oportunidade de, pelo menos 6% do seu imposto, você saber para onde está indo. Só de saberem que parte do imposto não está indo para o bolo do governo, as pessoas já ficam mais aliviadas. É uma forma democrática de você escolher para onde seu imposto vai. As pessoas que fazem uma vez, veem que é tranquilo, tudo certinho, no ano seguinte já chegam com os 6% para investir na cultura. Brasileiro ainda não tem uma cultura de doação muito forte. Lá fora, vários equipamentos culturais são financiados em grande parte por pessoas físicas. Os produtos culturais, hoje em dia, não querem ficar na mão de um único patrocinador, porque se naquele ano o patrocinador não tem lucro, você perde seu patrocínio inteiro. Então, a gente acredita muito no poder do coletivo, e pessoas fazendo junto, acreditando em pessoas. O financiamento coletivo foi uma ferramenta que está em crescimento, é uma forma de ser transparente, tudo online. Não é fácil. É um desafio diário, mas que estamos enfrentando.

SIMI: Você falou da sua mãe e sua avó. Qual o papel da sua família na sua decisão de empreender?
Bruna: A história da minha avó é muito forte. Ela veio fugida do Líbano com minha mãe no colo, porque se separou lá. Ela foi uma das primeiras mulheres libanesas a se divorciar, de um casamento arranjado. Veio porque tinha alguns parentes morando aqui e lá não podia fazer nada. Ela colocou minha mãe, com 13 anos, no colo e veio para cá, sem falar português. Começou a vender marmita árabe para sobreviver aqui. Ela foi uma mulher muito forte e corajosa. Acho que ela nem tem noção dessa força, de largar tudo, e vir para um país desconhecido. Já minha mãe fez Comércio Exterior, começou a trabalhar desde muito cedo. E aí um dia ela foi demitida, com três filhas para criar, já estava divorciada. Minha avó tinha algumas jóias, acreditou na minha mãe, penhorou essas jóias e minha mãe começou a empreender, com 30 e poucos anos, abrindo a empresa dela de comércio exterior. Minha mãe foi muito esperta, pegou as pessoas-chave do mercado, e começou assim. Hoje a empresa cresceu muito. Tive esse privilégio, esse conforto, de poder arriscar. Do mesmo jeito que minha avó ajudou minha mãe, minha mãe me apoiou desde o dia 1. Ela até me chamou, conversou comigo, perguntou se eu tinha certeza que queria abrir o próprio negócio. Porque a partir do momento que você tem um negócio é trabalho 24 horas por dia, você não fica tranquilo enquanto o salário da galera não está pago, você não vai ter um chefe só, você vai ter milhares. Minha mãe foi minha coach. Assim como minha avó apoiou minha mãe, minha mãe sempre acreditou e me apoiou. Vejo que as gerações vão mudando. Minha avó empreendeu por sobrevivência. Minha mãe começou a empreender por necessidade de ganhar dinheiro. Ela falava que não sabia se amava comércio exterior, mas que era o que ela havia feito na faculdade e sabia fazer. Hoje em dia, eu penso no bem comum, não vou empreender sem pensar no propósito. Na Evoé todo mundo vê as coisas acontecendo e sente parte daquilo. Por isso acho que não dei conta de trabalhar com minha mãe, de virar ‘herdeira’ (rs), vamos dizer assim. Já estava tudo pronto, montado e eu poderia acomodar e seguir minha vida.

SIMI: Vindo de uma família de mulheres fortes, como é ser uma mulher empreendedora em um mercado ainda muito machista?
Bruna:  Quando eu cheguei no SEED assustei. Eu lembro que de um universo de 40 startups, apenas 7 CEOs eram mulheres. Então é um número ainda muito baixo. Eu lembro que não tinha nenhuma desenvolvedora mulher. Agora, cada vez mais, tem rolado mais movimentos de mulheres na tecnologia. Mas é sim um mercado fechado, que está começando a se abrir. Durante o programa, via machismos acontecendo. Acho que está tão enraizado nas pessoas que passa sem perceber. A gente vê que a maioria dos palestrantes são homens, que no dia 1 não veio nenhuma mulher empreendedora falar, então as mulheres sentem. Para a maioria das pessoas é muito natural, mas sinto que há muito mulher ‘foda’ fazendo muita coisa ‘foda’. A gente vai ocupar tudo, já está ocupando. Sinto muito orgulho de ter feito parte do SEED, esse programa é sensacional.

SIMI: Mas é mais difícil empreender sendo mulher?
Bruna: No mercado de tecnologia já senti [dificuldade]. Às vezes, você vai conversar com investidor e eles não dão tanta moral por ser mulher. Já percebi em várias reuniões que a pessoa não olha para você. Mas ao mesmo tempo tem muita gente abrindo a cabeça. Isso já está tão pré-histórico. A ideia é as mulheres irem com tudo. Conheci cada mulher sensacional aqui, que me inspira, a Janayna Bhering, a Ju Brasil, a Amanda Busato, todas empreendedoras da rodada passada. A gente tinha um grupo de CEOs mulheres, a gente se apoiava. A gente tem que se unir. O grupo era para discutir sobre funcionários, lideranças. Faltava essa força das mulheres e a gente resolveu se unir. Mas no mercado ainda falta muito.

SIMI: Como você avalia a Evoé antes e depois do SEED?
Bruna: Sempre falo: a palavra é amadurecimento. Antes eu nem sabia o que era uma startup. A gente caiu muito de paraquedas, nem sei como fomos aprovados. Mas foi muito legal. Acho que eu, Bruna, como empreendedora, cresci muito. Ainda tenho muito o que crescer, estou engatinhando ainda. Todo dia apanho, aprendo demais, mas o Seed foi tapa na cara todo santo dia. Foram seis meses muito intensos. Eu reestruturei minha equipe inteira. A plataforma mudou muita coisa, comecei a enxergar que estava perdendo muito tempo com coisas à toa, que não me levariam aonde eu queria chegar. Trabalhar com objetivo, com foco. Antes estava apenas indo, não tinha uma estratégia, não tinha um foco, não tinha alguém para puxar. O programa foi me puxando e a Evoé cresceu muito. Foi uma escola. A troca entre os empreendedores, o networking aqui foi sensacional. As portas que se abrem, a visibilidade é muito grande. O aporte financeiro é o de menos. Você vira parte da família e sei que tudo que precisar vai estar aí no SEED.

SIMI: Como a Evoé está hoje?
Bruna: A gente está numa fase de reformulação da plataforma. Ela foi começando de uma forma muito imatura, e aí resolvemos colocá-la para baixo e começar do zero, senão iria virar um emaranhado de coisas. Acredito que em julho vamos lançar a plataforma 2.0, sempre em construção. A gente recebe feedback dos usuários dos projetos e vai sempre melhorando. Eu falo que meu objetivo nunca foi ser uma plataforma de financiamento coletivo. O objetivo é desenvolver e trazer sustentabilidade para projetos da economia criativa. A plataforma é apenas uma ferramenta. A gente tem visto outros mercados e formas de fazer o inverso, de fazer parceria com contadores para a Receita Federal. Esse ano a gente começou a trabalhar nisso para ter a base de apoiadores para dividir entre os projetos. Ao invés de ter os projetos para correr atrás dos apoiadores. Ter essa base de dinheiro, de imposto, para que cada vez mais projetos aconteçam e saiam do papel.

SIMI: Nesta longa escadaria que é empreender, qual seria o próximo degrau para a startup?
Bruna: Olha, primeiro a gente tem que dominar o local, nossa cidade, nosso estado. A gente não quer dominar o mundo. Estamos entendendo. Tem muita coisa acontecendo, a cena cultural de Belo Horizonte está vibrante. Então primeiro estamos focados nisso para esse resto de 2018. Mas é claro que queremos crescer. A gente já teve projetos pelo Brasil, mas acho que o próximo passo é se tornar referência. Quando se pensar em cultura, se pensar em Evoé. A gente tem muitas ideias, mas não tem tanto braço para fazer. A gente faz eventos mensais na Evoé para discutir assuntos. Tudo que você imaginar que desenvolve a economia criativa, a gente faz. Esse ano estamos focando na plataforma, para ser linda, e depois a gente foca na parte criativa.

Via SIMI

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